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A Força do Campo

Com a alta demanda por alimentos e câmbio favorável à exportação, a agropecuária cresce na pandemia.

A pandemia parou o mundo, mas não o setor agropecuário. Fundamental para manter o abastecimento alimentar, as atividades do campo tiveram uma atenção especial do poder público e um esforço redobrado da iniciativa privada para manter seu funcionamento mesmo nos piores dias da pandemia. Além de atender a demanda interna, as empresas que atuam em Pernambuco em segmentos como sucroenergético e frutivinicultor aproveitaram uma janela de oportunidades nas exportações. Com o câmbio favorável (dólar e euro altos) e uma maior procura de diversos países para aumentar seus estoques, o ano 2020 passou mais distante da crise intensa que viveram o segundo e o terceiro setores da economia.

SETOR AGRÍCOLA EM PERNAMBUCO 

  • Área Plantada (out/20). 
    • 2019: 720,4 mil hectares. 
    • 4,97% foi o crescimento em um ano. 
  • Área Colhida (out/20). 
    • 636,4 mil hectares. 
    • 12,5% de variação positiva em um ano, a maior do Brasil. 
  • Produção de Lavoura (out/20). 
    • 15 milhões de toneladas. 
    • 9,8% foi o crescimento em um ano. 

De acordo com dados levantados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, a partir de informações do IBGE, a produção das lavouras até outubro cresceu em 9,8% em relação ao mesmo período do ano passado. O Estado alcançou assim uma produção de 15 milhões de toneladas neste ano. O crescimento, no entanto, não atingiu todos os segmentos. Os cultivos de banana, mandioca e uva, por exemplo, tiveram variação negativa. A área colhida em 2020 cresceu em 12% em relação ao ano passado, sendo a maior variação do País, alcançando o marco de 636,4 mil hectares. O Secretário de Desenvolvimento Agrário de Pernambuco, Dilson Peixoto, afirma que o setor agropecuário alcançou resultados expressivos, apesar da crise da Covid-19. “A agricultura e a pecuária são setores em que o produtor, mesmo isolado na sua fazenda, pode continuar produzindo, plantando e colhendo. Criamos inclusive um grupo de secretários para tratar basicamente do transporte de mercadorias, dando prioridade à questão alimentar, para garantir o escoamento dos produtos. Isso fez com que as feiras continuassem a funcionar e conseguíssemos que a agropecuária, mesmo na pandemia, continuasse a fornecer alimentos. Não aconteceu crise alimentar, isso fez com que o setor tivesse bom desempenho. A avicultura, bovinocultura, caprinocultura e o setor da fruticultura mantiveram a produção e até apresentaram crescimento em alguns casos”. Peixoto aponta que além de digitalizar a emissão de guias de transporte animal e vegetal, houve um esforço para comprar alimentos da agricultura familiar e entregar essa produção para famílias carentes. Ele lembra ainda que houve um aumento do repasse para o Programa do Leite de R$ 16 milhões para R$ 24 milhões.

CANA, AÇÚCAR E EXPORTAÇÕES

O setor sucroenergético, principal player do campo em Pernambuco, passou por altos e baixos ao longo do ano na avaliação de Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar. Ele afirmou que houve muitas retrações de consumo no início da pandemia, principalmente entre os meses de março e maio. O crescimento do consumo posteriormente e a melhoria das condições de exportações mudou o cenário ao longo do ano. “Por integrar a economia denominada de essencial, o fluxo de vendas do açúcar voltou a dar sinais de vida, mesmo com o isolamento social, quando as pessoas passaram a consumir mais alimentos, carboidratos, sobremesas, sorvetes, refrigerantes, iogurtes, doces e bolos. No entanto, esse fenômeno só veio a ocorrer de forma mais intensa a partir de agosto e setembro, quando a taxa do dólar subiu de R$ 5 para cerca de R$ 5,40, o que recuperou as exportações de açúcar. Essa situação foi associada ao fato da commodity nas bolsas ter-se elevado de US$ 270 por tonelada para níveis próximos de US$ 300, balanceando os fluxos das empresas que sofreram e sofrem com as contrações no consumo do etanol”, afirmou Renato Cunha. Ele afirma que na safra atual (2020/2021) há uma expectativa de exportar cerca de 45% da produção de açúcar ou em torno das 440 mil toneladas. “O contingente é superior ao volume 330 mil toneladas da safra passada”. Ele conta que as exportações neste atual ciclo serão de 300 mil toneladas de açúcar refinado ensacado, destinadas, sobretudo, ao norte da África (Argélia e Tunísia), Turquia e Oriente Médio. Um total de 140 mil toneladas do açúcar VHP-Very High Polarisation, um produto mais bruto, terá destino principalmente para os EUA e a Europa. Uma estreante nas exportações é a Cooperativa do Agronegócio dos Fornecedores de Cana-de-Açúcar (Coaf). Com a sexta safra após a reativação da Usina Cruangi, em Timbaúba, os 1,5 mil cooperados viram pela primeira vez uma parcela de sua produção, cerca de 10 mil toneladas, seguir para o mercado internacional. Outra inovação deste ano foi a fabricação do álcool em gel e álcool 70%, atendendo uma grande necessidade do País em meio à pandemia. Dona das marcas Água Azul e Timbaúba, a cooperativa viu uma melhoria de preços e um aumento da demanda no mercado interno do açúcar, que é distribuído principalmente em Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Para aumentar a competitividade no Brasil e no exterior, o presidente da Coaf, Alexandre Andrade Lima, afirma que a partir de 2021 será criada a Central das Cooperativas, que irá englobar quatro dessas organizações. “Vimos uma oportunidade e estamos trabalhando firme para que isso aconteça e nos posicione como o segundo maior conglomerado de produção de açúcar do Nordeste. Isso ajudará na competitividade da cooperativa, com um suporte importante de compras e vendas coletivas, trazendo benefício para todos”, afirmou o dirigente, que é também presidente da Associação de Fornecedores de Cana de Pernambuco e da Federação dos Produtores de Cana do Brasil.

FRUTIVINICULTURA

Com grande expertise em exportação de frutas, o Polo do Vale do São Francisco também vive um ano de 2020 com crescimento. “Não tivemos muitas intercorrências decorrentes da Covid-19, mas principalmente de chuvas extemporâneas. A safra atual está sendo ainda consolidada, mas com 25% a 30% da produção de manga e uva voltada para exportação, o resultado geral tem sido interessante”, conta José Gualberto, presidente da Valexport. Diante de uma produção estimada de 1,2 milhão de toneladas de mangas e uvas, cerca de 300 mil toneladas terão como destino o mercado exterior. “Há um aumento de exportações, mas não é imediato, pois é preciso negociar e abrir novos mercados. Como temos a expectativa do dólar continuar entre R$ 5 e R$ 5,50, há um conforto para o setor, pois neste patamar facilita o envio dos nossos produtos para fora”, conta Gualberto. Ele informa que os principais mercados receptores das frutas do Vale do São Francisco são a Europa e os Estados Unidos. A Argentina segue sendo um grande comprador, mas houve uma redução das compras em decorrência da crise econômica do país vizinho. Ele aponta que a Coreia do Sul é um possível destino com capacidade de crescimento nos próximos anos. Com sede em Belém do São Francisco, a Agrodan exportou em 2020 um total de 92% da sua produção de mangas. O mercado europeu é o principal destino da empresa, que viu recentemente um aumento de compras vindo da Rússia. Apesar do desafio logístico, é um dos países com grande potencial de crescimento no comércio exterior.
As dificuldades iniciais promovidas pela pandemia, em torno de cinco semanas, foram logo superadas pelo aumento do consumo de frutas pelos europeus e até do crescimento da compra dos supermercados no Velho Mundo. Além do preço, favorecido pelo câmbio, um dos motivos foi uma queda na safra de concorrentes africanos. “As exportações de frutas brasileiras cresceram 20% em 2020. A pandemia afetou muito pouco o setor”, afirma o empresário Paulo Dantas. Ele conta que a Agrodan caminha para ter o melhor ano de sua história. “Tudo foi ajudado pelas circunstâncias do mercado, com um câmbio favorável, e com a descoberta de várias soluções que reduziram custos”. A produção deve fechar o ano com uma média de crescimento entre 5% e 6%, mas a taxa de lucratividade da empresa atingirá uma melhoria em 80% neste ano. Um legado da pandemia na eficiência da empresa que deverá permanecer nos próximos anos.
Apesar das grandes oportunidades do mercado externo, a Agrodan tem o objetivo de crescer também no Brasil. A meta da empresa é de avançar em 5% ao ano a venda de mangas no País. “No médio prazo queremos chegar a 40% do faturamento do mercado interno”, conta. Dois produtos da empresa que estão nas prateleiras são a Manga de Colher e a Manga Baby Turma da Mônica. Por meio de uma parceria com a Maurício de Souza, a Agrodan passou a comercializar algumas mangas de menor porte, que apesar de ter um sabor bastante acentuado, em razão do tamanho eram descartadas anteriormente.
Saindo do Vale do São Francisco e chegando ao município de Inajá, o destaque da produção é para o melão. A Inajá Agrícola, que é dirigida por José Alberto Machado, tem produção ainda de melancia, banana e abóbora. O empresário lamentou que em 2020 a falta de embalagens comprometeu as exportações. “Este tem sido um ano difícil, pois não conseguimos comprar embalagens para a exportação. Faltou matéria-prima e nossos fornecedores não conseguiram nos enviar. Eles prometem em janeiro voltar ao normal”. Além disso, o volume de chuvas acima da média no município e as dificuldades de embarcar as frutas no primeiro semestre do ano foram outros fatores complicadores, no relato de José Alberto. Com 200 hectares de área plantada, o empresário espera aumentar a área produtiva em 2021 e superar a dificuldade com as embalagens deste ano. Com uma produção média de 800 toneladas/ ano, a empresa tem escoado seus produtos principalmente no Sudeste, nos estados de São Paulo e Minas Gerais, além da produção que fica em Pernambuco.

EMPREGOS NO CAMPO

O ano aquecido da agropecuária teve também repercussões na geração de empregos, segundo a startup Emprego Rural, que lançou um portal exclusivo de carreiras no setor. “O aumento foi grande, alguns estados perceberam um crescimento de mais de 30% nas contratações, mas não somente na área rural, no agronegócio como um todo, principalmente por cargos mais técnicos e a expectativa é que esse número aumente”, afirmou Carlos Tetamanti, CEO da Emprego Rural.
Em Pernambuco, ele revela que na comparação do primeiro trimestre de 2020 com o primeiro trimestre de 2019, o setor agropecuário apresentou variação de 0,4%. “A pecuária cresceu 3,9%, com destaque para o aumento na produção de ovos e da avicultura, suinocultura e bovinocultura de corte. No frango de corte, Pernambuco tem 1,10% do plantel de aves. Ficando em sétimo no ranking nacional. A avicultura emprega mais de 150 mil pessoas no Estado, é emprego e renda para milhares de famílias. Além de levar alimentos de qualidade e que fazem bem à saúde das pessoas. E todos esses segmentos estão contratando, principalmente mão de obra operacional”, disse Tetamanti. Para 2021, a Confederação Nacional da Agricultura projeta um crescimento de 3% do PIB do agronegócio. Um cenário promissor para os profissionais e empresários do campo.

ORGÂNICOS EM ALTA

A pandemia ligou um sinal de alerta dos consumidores para a preservação ambiental e para a qualidade da alimentação. Dois fenômenos que atingiram o comportamento dos brasileiros e que contribuíram para o avanço do mercado de orgânicos. “Em 2020, os orgânicos continuaram firmes em seus avanços e conquistas. E a percepção geral de quem vive esse mercado é que o crescimento deste ano deve ser ainda maior do que o observado em 2018 e 2019, que foi de cerca de 20% e movimentou quase US$ 1 bilhão, ou cerca de R$ 4,5 bilhões no câmbio da época”, afirma Cobi Cruz, diretor da Organis, Associação de Promoção dos Orgânicos. Ele avalia que o setor tem caminho aberto para crescer muito nos próximos anos, acompanhando a consciência global de que precisamos nos alimentar sem causar danos à nossa saúde, à terra, ao ar, à água, à flora e à fauna. “Podemos dizer que 2020 deu ao mercado, e até mesmo aos próprios orgânicos, uma prova de que temos condições de atender com alta qualidade a uma demanda cada vez maior, não apenas em termos de capacidade de produção mas, também, assumindo novas e modernas formas de divulgação, contato, comercialização, entrega”, avalia Cruz. 
O diretor afirma que só em Pernambuco há um total de 804 unidades cadastradas de produção orgânica certificada. A eleição de Joe Biden, que tem colocado a sustentabilidade ambiental como um dos pilares da sua presidência nos Estados Unidos, é um dos fatores observados por Cobi para trazer um impulso ainda maior à produção orgânica no mundo. “Ao que tudo indica, temos agora uma superpotência global que, desde antes de iniciar a gestão, já vem colocando as questões ambientais como uma de suas grandes prioridades. É óbvio, portanto, que, com o imenso poder de marketing dos EUA voltado a essa temática, isso vai abrir uma vitrine maior para a divulgação dos conceitos orgânicos e, consequentemente, um aumento da presença de seus produtos nas mais diversas formas de comercialização”.